Você é o que você faz nas redes sociais

Você é o que você faz nas redes sociais

Você dá uma curtida no Facebook, duas, três… Faz uma postagem de uma foto do bolo de chocolate que acabou de comer. Ainda no Facebook faz alguns compartilhamentos de posts que você concorda com o conteúdo ou apenas achou engraçado – “ah, era um gatinho tão fofo”. Conversou com um amigo por alguns minutos no WhatsApp, distribuiu cinco coraçõezinhos no Instagram, assistiu quase todos os Stories (pulou aqueles de pessoas que você não tem interesse). O que meia hora nas redes sociais dizem sobre você?

O termo redes sociais equivale ao estudo da sociedade a partir do conceito de rede. Na terceira temporada da série de ficção Black Mirror (2016), há dois episódios que se aproximam da realidade e ilustram o perigo da influência daquilo que é publicado na internet e as consequências diretas sobre a sociedade. “Nosedive” é primeiro episódio da temporada e se passa em um mundo que é de fato uma grande rede social mediada por aparelhos tecnológicos, onde todas as pessoas estão inseridas e avaliam umas às outras com até cinco estrelas. Após uma série de acontecimentos em sua busca frustrada para conseguir se tornar uma 4.5 (número de popularidade considerado bom), surge um paradoxo: Nancie (interpretada por Bryce Dallas Howard) termina na prisão e despeja toda a sua raiva em um desconhecido, que faz o mesmo, pois a prisão se torna o único lugar onde ela pode se expressar livremente, sem medo das avaliações.

Também da terceira temporada, o último episódio “Hated in the Nation” é o mais longo de toda a série. Em decorrência de uma sucessão de mortes inexplicáveis, duas detetives descobrem o que as liga: todas as vítimas foram alvo de críticas nas redes sociais, a hashtag “#DeathTo” no Twitter. que  acaba elegendo a pessoa mais odiada do dia. Esse é apenas o começo de um plano que tem por objetivo matar milhares de pessoas que participaram desse “jogo” como punição pelo seu próprio ódio infundado e gratuito.

Registros do finado sendo compiladas para a criação de seu clone – Black Mirror

Raquel Recuero (2009) afirma em seu texto que as redes sociais são como uma metáfora para observar padrões de conexões em um grupo social, a partir de conexões estabelecidas entre diversos atores. E você é um desses atores. No episódio “Be right back” da segunda temporada de Black Mirror (2013), uma pessoa é recriada sinteticamente, e reproduz o comportamento do falecido noivo da protagonista. A criação deste novo ser só foi possível por conta das interações e atividades desde indivíduo em vida, tudo que ele postou, compartilhou, salvou, registrou, curtiu, conversou, gostou, desgostou, tudo foi compilado num novo ser andróide, de aparência idêntica.

Mulder e Scully levando o monstro para um show de Cher

A experiência, que parecia perfeita para suprir a falta de um companheiro, acaba se tornando um tormento. Não foi dessa vez que conseguimos recriar um ser humano perfeito, nem no episódio de Arquivo-X que leva o trocadilho de “Prometeu Pós-moderno” (1997), em alusão à alcunha do monstro de Victor Frankenstein, o Prometeu Moderno. Neste episódio, um monstro criado em laboratório (e que é fã da cantora Cher) assombra as donas de casa de um vilarejo rural, em busca da reprodução de seres iguais a ele.

Mulder: "Imagine você ter o poder de criar uma pessoa a sua imagem?"

Scully: "O ser humano já tem esse poder, Mulder. Se chama procriação..."

 

Mark Watney, vlogueiro perdido em Marte

Recuero (2009) traz a tona a função dos blogs e sites pessoais, um processo permanente de expressão de identidade, que vai além desses sites e se apropria de espaços públicos, como os perfis em softwares. Atualizando para os dias atuais, podemos citar Facebook, Snapchat, Instagram, WhatsApp, etc. Ela diz: “Essas apropriações funcionam como uma presença do “eu” no ciberespaço, um espaço privado e, ao mesmo tempo, público”. E se formos além do ciberespaço, com perdão da piada, e pensarmos em ocupar um espaço no espaço? No filme “Perdido em Marte” (2015), o botânico Mark Watney (interpretado por Matt Damon) é abandonado em Marte depois que seus colegas astronautas o consideraram morto. Ele narra através de um vídeo diário seu dia-a-dia tentando sobreviver no planeta vermelho, e de certa forma essa válvula de escape o ajuda a manter-se vivo.

Como os atores sociais desenvolvem suas percepções e as propagam? É aí que entram as conexões, onde cada ator é um nó interagindo no ciberespaço, numa troca mútua, tendo como elementos de conexão a interação, as relações e os laços sociais. Sobre os tipos de interação, Primo (2003) classifica em dois tipos “(…) interação mútua é aquela caracterizada por relações interdependentes e processos de negociação, em que cada interagente participa da construção inventiva e cooperada da relação, afetando-se mutuamente; já a interação reativa é limitada por relações determinísticas de estímulo e resposta”.

O Fim da Eternidade – Capa original de 1955

Segundo Recuero (2009), a interação social pode se dar de forma síncrona e assíncrona, basicamente determinado pela construção temporal causada pela mediação. Na síncrona a interação é em tempo real, ou quase isso; já na assíncrona, não há uma conversação em tempo real, e as respostas não são imediatas. Talvez uma terceira forma de interação tenha sido inventada por Isaac Asimov no livro “O fim da eternidade” (1955), onde um grupo chamado de “Eternos” faz interações e intervenções viajando através dos séculos, alterando o futuro. Seria uma ação que aguarda reação para séculos depois. Haja paciência.

 

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