Tem wifi em Marte?

Tem wifi em Marte?

Capa da edição especial do filme Videodrome (1983)

Em uma das cenas do filme Videodrome (David Cronenberg, 1983), Max, vivido por James Woods, é seduzido por um programa de TV, protagonizado por uma sedutora mulher. Em determinado momento a boca da mulher salta da tela, e Max consegue tocá-la, posteriormente entrando na TV com ela. Em 1983 apenas a ficção científica poderia quebrar a barreira dos meios de comunicação massiva, fazendo com que emissor e receptor interagissem em duas vias.

O início dos anos 80 foi marcado pela revolução tecnológica com o advento dos computadores pessoais, a IBM lançou o primeiro PC (personal computer) em 1981 com grande estardalhaço na mídia, e uma onda de filmes, livros e seriados abordando temas tecnológicos tomou conta da década, como Tron (1980), E.T – O Extraterrestre (1982), Jogos de Guerra (1983) e Robocop (1987).

Comandante Avo segurando o “memorizador”

Com cenas que alternam entre um estúdio construído em um galpão na Boca do Rio e as areias brancas de Arembepe, Abrigo Nuclear (1981) foi o primeiro filme de ficção científica do cinema baiano. No longa metragem, o abrigo subterrâneo conta com um sistema de câmeras e monitores que permitiam diálogo instantâneo, simulando uma chamada de vídeo. Outro fato curioso é que mesmo antes do surgimento dos computadores, a trama se constrói em torno de um objeto importante chamado de “memorizador”, que já se parecia com um pendrive tanto em seu formato, quanto em sua finalidade funcional.

Capa do filme Abrigo Nuclear (1981)

A interação dos personagens com a televisão podem ser lembradas em filmes e desenhos animados, como Pica Pau, que costumava conversar e até mesmo atirar nos apresentadores dentro da TV. Essa ruptura de direção unilateral da informação foi aos poucos tornando-se real, com a popularização da teleinformática e o surgimento da internet.

Episódio de Pica Pau chamado “Propaganda Super”, de 1960

Lemos (2007) chama esse fenômeno de liberação do pólo da emissão, quando “o antigo receptor passa a produzir e emitir sua própria informação, de forma livre, multimodal e planetária”. Em tempos de auge da cibercultura, qualquer pessoa com acesso à internet consegue externar seus pensamentos, banalidades e ideologias para várias outras pessoas ao mesmo tempo.

Na definição da palavra, cibercultura contempla os fenômenos associados às formas de comunicação mediadas por computadores, com alcance local ou global. Essa cultura pós-massiva ganhou força com a capilarização da internet, invadindo nossas vidas e atividades, como gavinhas. O mais curioso é que a internet surgiu de um projeto militar americano de 1969 chamado ARPANET, que nunca teve como objetivo alterar a cultura contemporânea, ou seja, a internet como conhecemos hoje foi uma invenção acidental.

Skynet – Exterminador do Futuro
Umbrella – Resident Evil

Acidentalmente também a organização Skynet voltou-se contra os humanos no filme O Exterminador do Futuro (1984). Assim como o projeto ARPANET, a Skynet foi uma invenção com propósito de defesa, mas saiu de controle quando a inteligência artificial tomou consciência e decidiu erradicar os humanos da Terra. Nesta mesma linha, em Resident Evil (franquia de mídia fundada em 1996) a Umbrella Corporation nasceu como projeto farmacêutico e biológico audacioso e foi dominada por uma inteligência artificial chamada de Rainha Vermelha, que também tinha como objetivo destruir os humanos com os zumbis.

Rainha Vermelha inteligência artificial a serviço do mal em Resident Evil

Analisando o que pode ter saído de errado com estes dois projetos fictícios, talvez cheguemos à questão da reconfiguração, o terceiro princípio da cibercultura. O processo é um todo não fechado, formado pela emissão de informações, conexão em rede e resultando na reconfiguração sociocultural. Quando esse rearranjo é subestimado, as consequências e respostas podem estar além do esperado, trazendo surpresas ou imprevistos, como a eleição política de candidatos improváveis e surgimento de conflitos em terras consideradas pacificadas.

Essa reconfiguração sociocultural transformou o conceito de território, criando o que Lemos chama de “território digital informacional”. O termo globalização popularizou-se no final do século XX, sendo um fenômeno de quebra de barreiras e fronteiras, atualizando o termo “aldeia global” tecido por McLuhan na década de 60. Em Jogos Vorazes (saga criada em 2012), a questão territorial é tratada de forma assertiva, os 12 territórios tem fronteiras, fonte econômica e sociedades bem definidas e distintas entre si. A nação chamada Panem tem um controle rígido de sua população e não tolera a quebra das fronteiras. A curiosidade fica por conta do nome Panem, que é derivado do Latim “Panem et circenses” e se traduz como “pão e circo”, a essência dos Jogos Vorazes.

Mapa de Panem
População de Marte em Vingador do Futuro (1990)

O termo “não-lugar” foi cunhado pelo antropólogo Marc Augé em 1995, e pode ser relacionado a questão da desterritorialização descrita por Lemos, no que tange a não identificação de lugares transitórios, como shoppings, aeroportos e quartos de hotel. Do outro lado da moeda temos o multiculturalismo que leva fragmentos de sociedades diferentes para todos os lugares, criando uma miríade de culturas. No filme Vingador do Futuro (1990) parte da população mora no planeta Marte, que se tornou uma espécie de reduto de minorias e de grande diversidade. Nas cenas onde o protagonista Doug Quaid circula por uma cidade construída dentro das montanhas do planeta é possível ver todo tipo de pessoas: operários, ciganos, prostitutas, mutantes, pessoas deformadas, vindas de todas as partes da Terra. Ali não há uma nação cultural única sendo permeada, simplesmente porque ali nunca fora habitado antes, o não-lugar primitivo deu lugar à uma nova civilização miscigenada, graças aos avanços da tecnologia espacial.

Controle da água em Mad Max – Estrada da Fúria (2015)

Essa democracia tecnológica nos tempos atuais traz uma perspectiva emancipadora e alguns benefícios, como a extinção do racismo legalizado, a visão positiva dos sistemas políticos democráticos e a evolução e estabelecimento da consciência ambiental, esse último item ajudado por filmes como Mad Max (1979) e todas as suas sequências, onde a escassez da água trouxe um presente sombrio e violento, Abrigo Nuclear (1981) onde um grupo de pessoas se refugia em um abrigo subterrâneo para tentar preservar a espécie humana da radiação, ao mesmo tempo que planeja se libertar do regime ditado pela chefe Avo (Conceição Senna) e a animação da Pixar Wall-e (2008), onde após entulhar a Terra de lixo e poluir a atmosfera com gases tóxicos, a humanidade deixou o planeta e passou a viver em uma gigantesca nave. Talvez nosso futuro esteja entre morar numa nave flutuante no espaço ou dentro de uma montanha em Marte, desde que tenha internet.

Wall-e (2008)

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