Real ou Virtual: eis a questão?

Real ou Virtual: eis a questão?

“Ser ou não ser, eis a questão”. A famosa frase da obra Hamlet, de William Shakespeare, há muito habita o nosso imaginário e coloca-nos diante de um profundo questionamento existencial. Outros questionamentos dessa ordem dizem respeito ao modo como lidamos com o abstrato, ao desenvolvimento do conceito de alma, e à nossa ideia a respeito do que é o virtual. Com relação a esse último tópico, opor o real (ser) ao virtual (não ser) procede? Equivaleria a “dar um F5” no dilema shakespeariano? Para o filósofo tunisiano Pierre Lévy, essa não é a questão.

Na obra “O que é o Virtual?” (1998), o filósofo e pesquisador da ciência da comunicação conclui que uma das saídas mais fáceis e enganosas é tratar o virtual como oposto do real, ao não reconhecermos que o virtual existe em potência, e não em ato. Obras de ficção científica de tempos em tempos propõem-se a abordar esse tema, com os mais variados enfoques, e a leitura sugerida por essas obras (leitura que em si, pode ser identificada como um processo de virtualização) apontam tanto para cenários já vivenciados na contemporaneidade, quanto para aqueles projetados para o futuro, enquanto meras possibilidades.

Carro voador = sonho de consumo

Obra que adquiriu o status de cult com o passar do tempo, Blade Runner (1982) é um dos filmes conhecidos por ter sugerido algumas tecnologias comuns nos tempos atuais. Chamadas de vídeos, comandos por voz, inteligência artificial, todos esses recursos que fazem parte do filme, situado em 2019, estão presentes. Com relação aos carros voadores… ainda teremos que esperar mais um pouco.

Blade runner 2049

O filme Blade Runner 2049 (2017) aparece como uma continuação do filme anterior, não apenas no que diz respeito à transformação do universo originalmente criado em uma franquia, com suas respectivas interconexões narrativas, mas também como um processo de resposta à realidade projetada em 1982, a apenas dois anos do período em que o primeiro filme se passa. Lévy aponta esse processo de responder ao virtual como sendo uma atualização, processo criativo que gera respostas para questões que não foram previstas originalmente.

Outro aspecto curioso na comparação entre as duas obras é o fato de a realidade apresentada no segundo filme, que se passa daqui a 30 anos, ser menos inverossímil e intangível do que aquilo que foi projetado em 1982 para daqui a dois anos. Será que esse fenômeno decorre da dificuldade de encontrarmos, durante os processos de atualização, os dilemas que ainda farão parte da nossa existência, ou do fato de os exercícios de projeção habitualmente recaírem sobre um universo que não conhecemos amplamente: o universo quântico?

Campo de estudo que atrai a atenção de físicos, filósofos, e interessados de outras áreas – a exemplo do músico Gilberto Gil, que apresentou parte do seu entendimento sobre esse universo no álbum Quanta, de 1997 –, a física quântica representa mais um desafio à inteligência humana e aos seus postulados tradicionais, que não dão contam de vários fenômenos dessa ordem.

InterStellar (2014), filme que aborda teorias da física quântica

Esse salto interpretativo já foi exigido em muitos outros momentos ao longo da nossa existência, como por exemplo, na criação do conceito do número zero, número que, antes do conceito matemático, exigiu o desenvolvimento do conceito filosófico de “vazio” e posteriormente, de “vazio” que interfere (nos cálculos, na realidade), criação tida como uma das maiores aventuras intelectuais da humanidade.

Talvez a necessidade de uma curadoria extremamente especializada, que possibilite a adoção de um vocabulário que seja entendido pelo público, aliado ao receio de se criar obras que fiquem estigmatizadas (o primeiro Blade Runner, por exemplo, sofreu muitas críticas negativas na época do lançamento, sendo avaliado como um filme B, de menor relevância), especialmente nas produções cinematográficas, que exigem altos investimentos, sejam alguns dos motivos que façam com que as produções de ficção científica sejam muito próximas daquilo que nós já conhecemos ou prevemos para um futuro não muito distante.

Dentre os vários exemplos de produções que abordam, de forma literal ou metafórica, interpretações e atualizações sobre o que convencionou-se chamar de realidade virtual – mundo simulado por computadores e acessado através do uso de próteses –, temos a trilogia Matrix (1999, e dois filmes lançados em 2003) e o filme A Origem (2010). O filme Avatar (2009) pode ser compreendido como uma metáfora da ideia de realidade virtual, mas não uma representação fiel ao conceito, pelo fato de haver o transporte da consciência dos personagens para um planeta real na ficção (Pandora), e não para um mundo simulado.

Mais badass que o Chuck Norris

O primeiro Matrix tornou-se um clássico instantâneo da ficção científica, ao promover uma atualização do Mito da Caverna de Platão, que, em resumo, fala sobre o fato de nós termos uma visão distorcida da realidade, além de explorar outros mitos, como a ideia em torno da figura do Messias/ Salvador. Há inclusive pesquisas que apontam para a possibilidade de essa teoria ser verídica (http://revistagalileu.globo.com/Ciencia/noticia/2017/03/simulacao-de-computador-sim-voce-pode-estar-vivendo-na-matrix.html), e outras que buscam refutá-la (https://super.abril.com.br/ciencia/nao-nao-estamos-vivendo-em-uma-simulacao-de-computador/).

A atualização proposta pela obra sugere que vivemos em um mundo simulado por computadores – a tal Matrix – onde aqueles que foram libertados dele podem acessá-lo através de próteses que conectam o seu cérebro ao universo simulado. É claro que o sistema não gosta nada de ser hackeado, e utiliza os seus “antivírus”, que depois revelam também serem vírus (!?), para atacar aqueles que se rebelam contra ele e “saem e voltam para a caverna” na hora que bem entendem.

As voltas do mundo do filme A Origem

O filme A Origem (Inception, no original) apresenta uma espécie de atualização da atualização ao reinterpretar e reescrever elementos apresentados em Matrix. Agora, a relação é inversa: os seres humanos vivem no mundo concreto, e acessam através de dispositivos o mundo dos sonhos, cabendo aqui a comparação e correlação com o tema explorado (o virtual) pelo fato de o universo apresentado nos sonhos não ser apenas imaginário, mas também apresentar a possibilidade de ser construído.

Aqui reside uma diferença entre as duas obras: a realidade virtual em Matrix é uma simulação criada por computadores, e os sonhos do filme A Origem são tanto gerados pelo inconsciente quanto construídos por “arquitetos”, que moldam a realidade simulada de acordo com interesses e conveniências, seus ou dos seus contratantes. A figura do “arquiteto” também aparece em Matrix, mas como o criador da primeira versão beta do simulador.

O Arquiteto e Neo, não, pera

Diversos elementos nesses dois filmes dialogam, porém cabe ressaltar o conceito de rede virtual, tanto na simulação compartilhada em Matrix quanto nos sonhos compartilhados em A Origem, e a constante ideia de que o que se faz nos ambientes simulados tem impacto direto nos ambientes reais, a exemplo da morte dos avatares, que pode ocasionar a “morte” da consciência, um estado psicológico chamado no filme A Origem de limbo.

Sob essa perspectiva, até mesmo o próprio termo “realidade virtual”, apesar de consolidado pelo uso, pode sugerir um caráter redundante, já que o fato de a interação ocorrer através de dispositivos eletrônicos não nos livrar dos impactos reais de determinadas ações realizadas no mundo simulado. O ciberbullying e as fake news, são exemplos disso.

“Virtual ou real?” Os dois, por favor. E com uns cubos de gelo, porque o verão tá chegando com tudo.

Entendedores entenderão

https://projetocolabora.com.br/cultura/blade-runner-realidade-e-ficcao/

http://screamyell.com.br/site/2017/10/19/cinema-blade-runner-2049-de-denis-villeneuve/

http://www1.folha.uol.com.br/mercado/2017/10/1925173-em-1982-blade-runner-profetizava-para-2019-equipamentos-obsoletos.shtml

https://super.abril.com.br/ciencia/a-importancia-do-numero-zero/

http://www1.folha.uol.com.br/ilustrissima/2017/11/1932324-computadores-quanticos-resolverao-em-segundos-problemas-de-anos.shtml

http://www.cineplayers.com/critica/blade-runner–o-cacador-de-androides/3088

http://revistagalileu.globo.com/Ciencia/noticia/2017/03/simulacao-de-computador-sim-voce-pode-estar-vivendo-na-matrix.html

Não, não estamos vivendo em uma simulação de computador

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