Our democracy has been hacked

Our democracy has been hacked

Segundo a definição do dicionário Cambridge, hacker é alguém que “entra no sistema ou computador de outra pessoa sem permissão para descobrir informações ou fazer algo ilegal”, e a maioria dos filmes e seriados que abordam o tema concordam com essa definição: o hacker geralmente é o vilão, aquele que ameaça alguém ou até mesmo a paz mundial.

Já Sérgio Amadeu da Silveira (2010) afirma que “o verbo hackear deve ser entendido como reconfigurar, explorar novas características, ir além do que os protocolos delimitaram, buscar a superação do controle”, numa definição primacial.

Hacker do mal contra os mocinhos em Duro de Matar 4

Se perguntarmos qual o vilão do filme “Duro de matar 4” (Len Wiseman, 2007), a maioria das pessoas responderia “aqueles malditos hackers terroristas”, que atacaram as redes de comunicação do Estados Unidos no dia da Independência e ameaçavam roubar todo o dinheiro da previdência. Porém o que não é lembrado é que o ajudante do herói também era um “hacker”, mas esse era do bem, e sem esse garoto nerd Bruce Willis não teria nem saído do lugar.

Cena totalmente verossímil no filme Duro de Matar 4

Essa generalização do termo hacker para o mal e para o ilícito é comum, mas na verdade o termo correto para esta prática é cracker, e para alguns casos específicos, ciberterroristas. Os crackers têm como objetivo danificar um sistema ou modificá-lo para obter algum tipo de benefício. Como o vilão de 007 Operação Skyfall (Sam Mendes, 2012), o ex-agente e ciberterrorista Raoul Silva (Javier Bardem), que orquestra uma invasão aos sistemas do MI6, causando o caos em Londres.

James Bond monitorando o ataque ciberterrorista

Essa divisão dos termos hacker e cracker não é uma dicotomia tão simples assim, até que ponto um hacker invade e altera sistemas sem causar o mal ou dentro da legalidade? A série Mr. Robot (Sam Esmail, 2014) traz como protagonista o jovem engenheiro de cibersegurança Elliot (Rami Malek), que tem um emprego tedioso numa empresa terceirizada de segurança digital. Até que ele é recrutado para a fsociety, que pretende destruir algumas das maiores corporações mundiais, inclusive aquela para qual Elliot trabalha. Seu talento hacker é útil também para tarefas menores, como alterar a ficha médica do hospital onde ele está internado, e adulterar dados no sistema da polícia. Elliot seria um hacker por definição, porém cracker eventualmente?

Trailer de Mr. Robot

Galloway (2004) afirma que “hackers conhecem os códigos melhor que ninguém. Eles falam a língua dos computadores como se fosse uma língua materna”, e para Elliot, sua principal linguagem é a das máquinas, já que o protagonista sofre de fobias sociais e detesta interações interpessoais. A fsociety atua de forma anônima e busca uma espécie de justiça social, numa tentativa de redistribuição forçada de renda. Outros casos de hacktivismo, em menor escala, existem na vida real, como os atos do grupo chamado Anonymous. O episódio mais recente envolve a polêmica lei que está em votação nos EUA para a quebra da neutralidade da rede, que será um grande retrocesso no uso da internet livre caso seja aprovada.

O grupo Anonymous, através da sua conta no Twitter, prometeu lançar um ataque cibernético de 48 horas contra a organização Federal Communications Commission (FCC), uma espécie de Anatel americana, em represália ao projeto de lei que está prestes a ser aprovado pelo governo de Trump. Alexandra Whitney Samuel (2004) define que o hacktivismo é “o uso não violento, legal ou ilegal, de ferramentas digitais para perseguir finalidades políticas”, e partindo deste princípio, o Anonymous é o grupo mais atuante no momento, com subgrupos em centenas de países.

No Brasil, o grupo mantém um site (que alerta os visitantes que o site está protegido de ataques DDoS, uma das formas mais utilizadas para derrubar sites), e fala sobre o hacktivismo em um de seus artigos: “Partimos do pressuposto que o hacktivismo é um ativismo online, ou ciberativismo, que herda a cultura hacker. Para o sociólogo Manuel Castells, a internet possui uma cultura e essa cultura é formada pela cultura dos seus produtores. Isto é, a cultura hacker ajudou a moldar a cultura da internet, pois os hackers são parte integrante fundamental no desenvolvimento da internet ao longo de toda sua existência.” Recentemente hackers (ou ciberativistas) invadiram o site da Previdência Social, fizeram um defacement e ameaçaram vazar dados de brasileiros no sistema CADPREV, buscando fazer pressão contra a reforma de previdência.

Voltando ao caso “Net Neutrality” dos Estados Unidos, que se aprovado, se expandirá rapidamente para outros países, como o Brasil, há uma enorme mobilização contra a aprovação desta lei, sendo que o principal movimento se chama Battle for the internet, e conta com o apoio de inúmeros artistas, militando em suas redes sociais.

John Oliver explica o que significaria o fim da neutralidade da rede

O que a Vespa, o Hulk e uma bruxinha de Charmed tem em comum?

Seus respectivos atores são expoentes nesta cruzada contra a quebra da neutralidade da rede nos EUA, dando visibilidade a hashtag #SaveNetNeutrality. Evangeline Lilly, que interpreta a Vespa em Homem Formiga e a elfa Tauriel em O Hobbit, é uma militante de várias causas, e tem postado com frequência contra esta lei.

Mark Ruffalo, que interpreta o Hulk na franquia Os Vingadores, tem um largo histórico de luta por causas ambientais, e está engajado na questão #NetNeutrality em suas redes sociais e aparições públicas.

A atriz Alyssa Milano, que interpretou uma das irmãs bruxas na série Charmed, comprou uma briga virtual com o charmain da FCC, Ajit Pai, que respondeu seus tweets contra seu projeto lei.


Até mesmo o twitter oficial da série Mr. Robot publicou em defesa da neutralidade da rede.


O engajamento em redes sociais contra ou a favor questões sociais, políticas e econômicas criou o que chamamos de ciberativismo, que “têm gerado muita confusão nas forças partidárias tradicionais e têm borrado as fronteiras das antigas lealdades à esquerda ou à direita”, como disse Amadeu da Silveira (2010). Seja um hacker de direita ou uma celebridade de esquerda, todos estão unidos em causas em comum, principalmente no que tange a liberdade de expressão, a internet livre, o acesso a arquivos digitais, entre outras causas.

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