O “Grande Irmão” está de olho nos seus rastros

O “Grande Irmão” está de olho nos seus rastros

Os mecanismos de segurança são observados ao longo da história como ferramentas que visam garantir a integridade das pessoas e dos seus patrimônios, e dizem muito a respeito do modo de organização de uma determinada sociedade. A ideia de que estamos sendo observados o tempo todo precede qualquer ficção científica, e tem como uma das bases mais fortes a imagem do Deus “onipresente, onisciente e onipotente” que há muito habita o nosso imaginário.

Panóptico – conceito

O filósofo francês Michel Foucault, na obra Vigiar e Punir: Nascimento da prisão (1975), discorre a respeito de um sistema que se aproxima bastante do conceito de vigilância permanente: o panóptico. Modelo penitenciário desenvolvido em 1785 pelo filósofo utilitarista inglês Jeremy Bentham, o panóptico trazia como inovação a “inversão do princípio da masmorra”, uma vez que deixava de ocultar o vigiado, passando a invisibilizar o vigilante. Para Foucault: “Daí o efeito mais importante do panóptico: induzir no detento um estado consciente e permanente de visibilidade que assegura o funcionamento automático do poder”, sendo essa uma das bases para a desenvolvimento das chamadas sociedades disciplinares.

Romance de 1949 do autor George Orwell que flerta com a ficção científica, a obra 1984, que recebeu duas adaptações para o cinema, apresenta a perturbadora imagem do Grande Irmão (Big Brother), um sistema de vigilância ininterrupta, elemento estratégico em uma sociedade totalitária na qual todos os passos dos habitantes eram vigiados. Parte dessa vigilância se dava através das teletelasaparelhos que funcionavam como televisor e câmera de vigilância conjugados.

Para temor de muitos, a tecnologia das teletelas tornou-se real, mais sofisticada e, em vez de apenas ser usada para promover um monitoramento ostensivo, pode também ser aplicada às câmeras de dispositivos eletrônicos hackeados, permitindo o acesso remoto por parte de pessoas cujas intenções não podem ser previstas. Se até Mark Zuckerberg, que não deve utilizar uma versão gratuita de qualquer antivírus, está cobrindo a câmera frontal do seu notebook, não deve ser à toa.

Uma das maiores diferenças entre a tecnologia do Grande Irmão sugerida na obra 1984 e o modo como ela aparece nos dias atuais é a sutileza que os processos atuais de vigilância possuem. Se na ficção o vigiar precedia o punir e estava fortemente baseado na instauração da disciplina pelo temor do castigo (assim como nas sociedades disciplinares), hoje os processos de vigilância passam pela construção do perfil de um indivíduo a partir dos rastros deixados durante o uso dos artefatos tecnológicos.

Muito desse rastreamento e do cruzamento de dados acontece graças à ação dos algoritmos – passos necessários para a realização de uma tarefa em sistemas computacionais. As possibilidades advindas dessa tecnologia favoreceram a superação das sociedades disciplinares, descritas por Foucault, abrindo caminho para as sociedades de controle.

De acordo com o também filósofo francês Gilles Deleuze (1990), as sociedades de controle: “Operam por máquinas de informática e computadores, cujo perigo passivo é a interferência, e o ativo a pirataria e a introdução de vírus”. Deleuze fala sobre os regimes de controle, que agem como uma “moldagem auto-deformante que muda continuamente, a cada instante”, apontando para a sofisticação dos modelos de vigilância atuais.

Essa moldagem em tempo real tem sido possível graças ao cruzamento entre as informações fornecidas pelos usuários (data) e aquilo que o sistema colhe (capta), em especial devido à articulação em rede com outros dispositivos. Um dos usos possíveis dessa tecnologia não se refere apenas à construção de diagramas (relações entre as partes coletadas, possibilitando a “reconstrução” de um objeto – o indivíduo, no caso) personalizados, mas também diz respeito à possibilidade de “prever” as ações dos usuários.

Precogs

Sistemas de previsão, aliás, há muito tempo despertam o interesse da humanidade, por possibilitarem a mudança da nossa relação com o tempo, ao nos prevenir do imponderável. O filme Minority Report (2002) apresenta um sistema de segurança com elevado nível de desenvolvimento tecnológico que faz uso de três videntes, chamados de precogs, capazes de prever de assassinatos. Os precogs atuam dentro do departamento de Pré-crimes da Polícia de Washington, nos Estados Unidos, no ano de 2054.

Vários elementos podem ser observados a partir dessa proposta ficcional: a possibilidade de antecipação dos crimes reduziu a zero o índice de homicídios em Washington, não apenas pela certeza da punição, mas principalmente pela garantia de que o crime não seria concluído, o que fazia com que qualquer plano do tipo deixasse de ter sentido. Seria como se a coibição provocada pelo panóptico fosse elevada à máxima potência. Por outro lado, os precogs não conseguiam prever crimes como assaltos, estupros ou suicídios, por limitações particulares.

1984

Na vida real as políticas de segurança preventiva podem dar conta de uma série de inconvenientes. Mas, para Foucault, um dos pontos em que a tecnologia deve ser recolocada é: “no ponto que os castigos universais das leis vêm aplicar-se seletivamente a certos indivíduos e sempre aos mesmos”. O que dizer dos policiais que abordam negros e moradores da periferia de maneira violenta (não apenas no Brasil), como se a culpa já existisse antes mesmo de qualquer ilegalidade cometida? Precogs em ação? Definitivamente, não. Esse é um dos elementos que compõem o que se chama de racismo institucional. Presunção de inocência? Infelizmente, isso não existe para todos.

Mas em relação à segurança preventiva legítima, a realidade tem apresentado indícios de como superar os videntes de Minority Report, pelo menos nos casos recorrentes de suicídios transmitidos ao vivo pelo Facebook – que passou a contar com identificadores de atividades atípicas. Possibilitados pelos algoritmos, esses identificadores conseguem gerar alertas para os Serviços de Segurança Pública dos perfis rastreados.

Apesar do temor inicial, comum a quase toda tecnologia nova implementada, é o uso dos dispositivos de vigilância que indicará o seu caráter benéfico ou maléfico. O Grande Irmão de Orwell? Provavelmente gostaria de vir diretamente para 2018, e exercer a sua temida vigilância, agora de maneira discreta e silenciosa. Isso se já não estiver entre nós… Ou então voltaria sem pensar duas vezes para 1984, ao descobrir que o seu nome é fortemente associado a um reality show de qualidade questionável…

Referências e sugestões de leitura:

Foucault, M. Vigiar e Punir: nascimento da prisão. Petrópoles: Vozes, p. 186-214, 2009.

Deleuze, G. Post-Scriptum sobre as sociedades de controle. In: _____. Conversações: 1972-1990, Editora 34, pp. 219-226, 1992.

https://brasil.elpais.com/brasil/2018/01/05/tecnologia/1515156123_044505.html 

http://www1.folha.uol.com.br/tec/2017/12/1945265-e-assustador-ver-tudo-o-que-o-google-sabe-sobre-mim.shtml?utm_source=facebook&utm_medium=social&utm_campaign=fbfolha

https://www.tecmundo.com.br/seguranca/125996-encriptacao-mensagens-problema-seguranca-grave-diz-fbi.htm?f&utm_source=facebook.com&utm_medium=referral&utm_campaign=thumb

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