Não é feitiçaria… é tecnologia!

Não é feitiçaria… é tecnologia!

O cinema há anos nos encanta nos transportando para o futuro. E atualmente, assistindo a filmes das décadas de 1960 a 1980, percebemos que o futuro conjecturado nas telonas antecipou, em muitos aspectos, a realidade vivida pós anos 2000.

Na trilogia “De Volta para o Futuro” (1985, 1989 e 1990) o De Lorean do cientista Doc Brown tinha uma pompa high-tech com seu painel cheio de possibilidades de comando – o volante do carro era só um detalhe. Hoje, carros como o DeLorean são relativamente comuns: o painel se tornou quase que um cardápio de opções para alterar a experiência da direção e o espaço onde fica o motorista é às vezes chamado de cabine.

No Audi A7, por exemplo, que foi lançado no último mês de outubro, em duas telas sensíveis  ao toque é possível controlar ar condicionado, inserir números de telefones ou endereços para guiar o GPS, além de escolher itens de navegação, música e outros ajustes. O carro conta ainda com bancos massageadores e ar-condicionado com perfume.

Uma pena só não conseguirmos ainda trafegar no tempo com eles – nesse aspecto ainda somos futuristas à moda antiga. Para outras funções, a realidade e a ficção buscaram soluções de algum modo semelhantes, mas com um abismo tecnológico entre elas.

James Bond não imaginaria que o “sms impresso” recebido da sua amada pelo relógio Seiko no filme “O espião que me amava” (1977) ou o alerta como um letreiro de LED em miniatura que aparece num Seiko mais moderno no filme seguinte, “007 Contra o Foguete da Morte” (1979), poderiam ser respondidos em áudio ou vídeo, em tempo real, pelo Apple Watch.

Objetos que causavam muito encantamento, os wearables sempre foram mostrados em filmes como facilitadores do cotidiano, em ambientes mais ou menos tecnológicos. A palavra inglesa wearable significa “vestível” ou “usável”, na tradução literal para a língua portuguesa. Os wearables, que faz parte do conceito da Internet das Coisas, ajudam a construir um ambiente em que a tecnologia passa a estar intrinsecamente ligada ao dia-a-dia das pessoas, cada vez mais de forma imperceptível.

HAL

O computador Hal do filme 2001: Uma Odisséia no Espaço (1968) controlava todos os aspectos da navegação obedecendo comandos de voz, e não parava por aí. Ele mantinha conversas com os tripulantes e até tinha vontade própria, o que acaba sendo um problema na trama.

Alexa é uma assistente virtual inteligente desenvolvida pela Amazon

Através de comandos de voz as duas fazem anotações, ligações e mandam mensagens. A voz de Scarlett Johansson, o sistema operacional Samantha em Her (2013), podia partir de vários dispositivos e organizava toda a vida do seu dono. Hal e Samantha compartilham de muita semelhança com as assistentes inteligentes Siri, da Apple, e Alexa, da Amazon.

Esta integração entre todos os aparatos tecnológicos caracteriza uma dimensão contextual de futuro. Com um comando para um dispositivo, ou um robô, você consegue controlar sua casa, saber sua agenda, fazer ligações, pesquisas, e tantas outras possibilidades que você puder ordenar.

Com a evolução da tecnologia, insere-se um novo paradigma sociocultural, trazendo a desconfiança no avanço tecnológico. O que é benéfico e o que é maléfico? Essa desconfiança e descrença no futuro nada mais é que medo do desconhecido, um campo prolífico para os autores de distopias, como Jogos Vorazes (Suzanne Collins, 2008) e Laranja Mecânica (Anthony Burgess, 1977), que se tornaram filmes de sucesso.

Gattaca

Outro temor advindo da evolução tecnológica é a manipulação genética, trazendo as preocupações sobre as tecnologias reprodutivas que facilitariam a eugenia, e as possíveis consequências de tais desenvolvimentos tecnológicos para a sociedade, como podemos ver de forma clara no filme Gattaca (Andrew Niccol, 1997), onde num futuro no qual os seres humanos são manipulados geneticamente em laboratórios, as pessoas concebidas biologicamente são consideradas inválidas.

Fantasia? Talvez nem tanto, hoje em dia nas clínicas de fertilidade é possível selecionar embriões de determinado sexo para evitar que doenças hereditárias determinadas pelo sexo possam se propagar ao filho. Existem também exames genéticos executados nos embriões congelados, chamados Diagnóstico Genético Pré-implantacional (PGD) e Screening Genético Pré-implantacional (PGS), que eliminam os embriões que possuam algum problema genético ou cromossômico, como a síndrome de Down.

 

Cena de Repo Men (2010)

Em 1969 McLuhan afirmou que os meios de comunicação são como extensões do homem, e Bergson em 1978 corroborou isso dizendo que “se nossos órgãos são instrumentos naturais, nossos instrumentos são por isso mesmo órgãos artificiais […] o ferramental da humanidade é, assim, um prolongamento de seu corpo”. No filme “Repo Men – O resgate de órgãos”, de 2010, a ideia de órgãos artificiais levantada por Bergson é colocada em prática, a trama gira em torno de dois homens que trabalham para uma empresa que cria órgãos artificiais, e que perseguem os clientes que não conseguem pagar os implantes, a fim de recuperar os órgãos para a empresa.

De acordo com Gandy e colaboradores, em trabalho publicado em 2017, nossa visão de futuro tem três dimensões: persona (usuários), contexto (cultural ou social) e tecnológico (próximas inovações). É importante notar que essas dimensões não se isolam em si próprias. Todas as tecnologias citadas têm também a dimensão de persona: o usuário precisa aprender a lidar com uma linguagem própria do dispositivo e habilidade técnica de manuseio, seja do smartphone ou do computador Hal. Simondon faz uma divisão semelhante, em três níveis de desenvolvimento: o elemento (a ferramenta), o indivíduo (a máquina) e o conjunto (indústrias). No final do século XX um quarto nível surge: o nível das redes, como interligação de conjuntos, trazendo a cibercultura. Os computadores traduzem a natureza em dados binários.

Segundo G. Simondon, a máquina será responsável pela sensação contemporânea de que a tecnologia é inimiga da cultura humana, o que seria uma espécie de defesa contra a posição que a máquina ocupa na civilização industrial. E se aplicarmos esse conceito de inimigo ao campo da robótica em geral? Em 1950 Isaac Asimov chocava seus leitores com a possibilidade de seres artificiais complexos, com inteligência artificial que tomam suas próprias decisões, no livro Eu, Robô. Surge nesta obra também as chamadas “Três Leis da Robótica”, que já denuncia o medo da evolução tecnológica:

1) um robô não pode ferir um humano ou permitir que um humano sofra algum mal;

2) os robôs devem obedecer às ordens dos humanos, exceto nos casos em que tais ordens entrem em conflito com a primeira lei; e

3) um robô deve proteger sua própria existência, desde que não entre em conflito com as leis anteriores.

Cena do filme Eu, Robô (2004)
Teste de Turing

Heidegger talvez tenha sido ingênuo em 1955 quando afirmou que “Nós podemos utilizar as coisas técnicas, nos servir normalmente mas, ao mesmo tempo, nos libertar delas de forma que, a todo momento, possamos conservar uma distância em relação a elas […] Mas podemos, ao mesmo tempo, deixá-los a eles mesmos, como algo que não nos atinge naquilo que nós temos de mais íntimo e próprio.” A inteligência artificial existente poderia chocar Heidegger, que faleceu em 1976, muito antes dos computadores tomarem vida. Em 2014, pela primeira vez um programa de computador enganou um número considerável de jurados no Teste de Turing. Ao tentar distinguir uma máquina de um humano, 10 dos 30 avaliadores foram convencidos de que o programa era um menino ucraniano chamado Eugene.

Um dos autores do roteiro do filme “2001: Uma odisséia no espaço”, Arthur C. Clarke disse uma vez “Any sufficiently advanced technology is indistinguishable from magic” (“Qualquer tecnologia suficientemente avançada é indistinguível da magia”).

O cinema imagina futuros impressionantes para convencer a audiência. Atualmente, vemos que esse futuro muitas vezes se concretiza bem o próximo do confabulado. E que mágica será que o ‘próximo futuro’ nos reserva? Ela será realizada?

 

Referências e recomendações:

From Dr. No to Spectre: We celebrate 35 awesome Bond wearables –

https://www.wareable.com/wearable-tech/bond-wearable-tech-007

Back to the future – http://www.backtothefuture.com/delorean/specifications

Gandy M, Baker PMA & Zeagler C. Imagining futures: A collaborative policy/device design for wearable computing. Futures (87), 2017.

 

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