Convergência entre realidade e ficção

Convergência entre realidade e ficção

Conceito recentemente desenvolvido por Henry Jenkins, a cultura de convergência é um fenômeno que começou a ser estudado no início desse século e é essencialmente marcado pelo cruzamento de mídias, sejam elas velhas ou novas. Segundo o autor, o atual cenário cultural possibilita que a mídia corporativa transpasse a mídia alternativa e gere uma interação entre a fonte produtora da mídia e as fontes receptoras. A convergência é “o fluxo de conteúdos através de múltiplas plataformas de mídia, a cooperação de múltiplos mercados midiáticos e o comportamento migratório dos públicos dos meios de comunicação que vão a quase qualquer parte em busca das experiências de entretenimento que desejam”.

A brincadeira que mistura realidade e ficção rende boas histórias e atiça a curiosidade e interesse dos consumidores. O avanço tecnológico permite que cada vez mais as pessoas se insiram nos universos criados na ficção. O telespectador e o leitor passam a interagir cada vez mais intimamente com a fantasia e a consumem de diferentes formas, como através de livros, filmes, quadrinhos e até em “escolas”.

Apesar de ser encarado por um ponto de vista que mergulha no universo tecnológico, é importante perceber que o autor analisa a convergência sob uma perspectiva antropológica, uma transformação cultural e “ocorre dos cérebros de consumidores individuais e suas interações sociais com os outros”. De tal modo, o autor vem chamando de narrativas transmidiáticas uma nova estética que surgiu em consequência do fenômeno da cultura de convergência das mídias, fazendo exigências aos consumidores, principalmente da participação ativa no que concerne ao conhecimento anterior nos mais diversos campos, demandando o esforço do consumidor em buscar dados e informações em seu repertório para se conectar aos novos produtos. Interligam um produto a novas tramas paralelas, expandindo e dando novos sentidos à narrativa principal.

No filme Meia-noite em Paris (2011), Woody Allen brinca através da trasmídia descrita por Henkins para levar para a ficção personagens do mundo real. O personagem principal do filme, Gil (Owen Wilson), é transportado para a Paris de 1920 quando o relógio marca meia-noite. Andando por festas, Gil conhece artistas que frequentavam a cidade à época, como o escritor Hemingway, o artista Salvador Dalí, Pablo Picasso, Scott Fitzgerald, Tolousse-Lautrec e outros.

No filme o roteirista Gil aproveita o convívio para pedir aos artistas que leiam e opinem sobre seu manuscrito – e o filme pressupõe que os espectadores conheçam detalhes das vidas dos artistas. É possível acompanhar a história sem conhecer as referências que aparecem nela – no entanto, o universo narrativo é compreendido em mais níveis, com mais profundidade, quando as referências fazem parte do conhecimento enciclopédico do espectador.

Meia Noite em Paris (2011) – o roteirista Gil (Owen Wilson) conversa com o cineasta Luis Buñuel (Adrien de Van) na Paris de 1920.

Uma das piadas contadas é quando o roteirista sugere a Luis Buñel que grave um longa onde as pessoas se reúnem para jantar e não conseguem sair da sala – situação que o cineasta retrataria no filme O Anjo Exterminador, de 1962. Se o telespectador não conhece Buñel, não consegue entender a piada – como eu, que tive que buscar as referências em sites de críticas cinematográficas. Mas agradeço a Allen – e o uso de transmídia – por expandir meu repertório.

No filme o personagem principal encontra artistas do mundo real. Também é possível que pessoas do mundo real encontrem personagens da ficção, e até viver um pouco no mundo da fantasia.

Embora alguns tendam a confundir, é importante desassociar transmídia de crossmídia. Transmídia não equivale ou é a adaptação de um mesmo conteúdo em diferentes mídias, e sim, crossmídia, onde a mensagem circula por diferentes meios sem se modificar ou alterar o sentido. Apesar de não ser um termo muito comum, essa técnica é muito utilizada para os mais diversos fins e pelas mais diversas mídias, a fim de difundir a mensagem para o alcance do maior número de receptores possível.

A série de livros Harry Potter transformada em filmes e games é um exemplo de crossmídia, como definido por Jenkins em artigo publicado na Technology Review. A escritora J. K. Howlling criou personagens e um mundo que caiu no gosto de jovens. Quem deseja viver nessa realidade de magia, na escola de bruxaria de Hogwarts e em outros cenários inventados pela autora pode ir ao parque de diversões Island of Adventure, da Universal, em Orlando, na Flórida (EUA).

Jovens bebendo cerveja amanteigada no parque Wizarding World of Harry Potter em frente ao castelo de Hogwarts em Orlando, na Flórida.

O parque conta com uma sessão inteira dedicada ao bruxo e o mundo da magia. No Wizarding World of Harry Potter o “trouxa” (como são denominados os não-bruxos no livro) pode praticar o esporte quadribol, visitar lojas que fazem parte da rotina de Potter e seus amigos, passear pelo castelo, assistir a feitiços sendo feitos ou mesmo fazê-los (se comprar a varinha interativa) e até provar as guloseimas criadas no livro, como a cerveja amanteigada. É o crossmídia ajudando as pessoas a ‘experienciar’ a ficção dos livros e filmes na realidade.

Professor ensinando alunos a “voar” nas vassouras a escola de Magia e Bruxaria do Brasil.

 

Os fãs brasileiros mais empolgados – e endinheirados – podem também se inscrever na Escola de Magia e Bruxaria do Brasil, em Campos do Jordão (SP). No local, os alunos recebem aulas das disciplinas criadas nos livros, como Herbologia e Defesa contra a arte das trevas, e os “professores” são na verdade atores que ficam 24h no papel durante a estadia dos alunos. Também é possível praticar o esporte quadribol correndo com uma vassoura entre as pernas – vassoura comum, dessas de limpar o chão, não a voadora de última geração dos bruxos . A escola cobra a mensalidade de cerca de R$ 2.600 por quatro dias de aula.
Capa do livro Animais Fantásticos e Onde Habitam – livro vem com etiqueta sinalizando que pertence a Harry Potter

 

A franquia multimilionária também se aproveitou do transmídia para encantar ainda mais os fãs – livros encontrados na biblioteca da Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts, e obviamente citados nos sete livros da série Harry Potter, também podem ser encontrados nas livrarias, a exemplo de Quadribol Através dos Séculos, Os Contos de Beedle o Bardo e Animais Fantásticos e onde Habitam. Este último também virou filme, chegando a arrecadar R$ 800 milhões nas bilheterias. É o transmídia que virou crossmídia, que virou trans de novo. A busca por maior experiência do leitor e telespectador também gera lucros.

 

Wolverine com uma revistinha dos X-Men em um filme dos X-Men

Os termos crossmídia e transmídia chegaram ao Brasil por volta de 2011, segundo o Google Trends, e causa certa confusão na definição e uso. Um exemplo de transmídia pode ser visto no filme Logan (2017), filme da franquia X-Men sobre o personagem Wolverine. Em algumas cenas aparece uma HQ dos próprios X-Men, trazida pela filha de Logan, que acredita que tudo que está ali é verdade. Essa convergência de mídias foi possível graças ao advento e mistura dos meios pós-massivos, permitindo que o público “participe” de narrativas ficcionais.

Um bom exemplo de crossmídia seria os ARGs (Alternate Reality Games), que basicamente são jogos os quais as pessoas participam pela internet. Pode ser na forma de pistas dadas pelos criadores para desvendar algo, como no caso de The Beast, um game que espalhava pistas em sites, todas relacionadas ao filme que se desejava promover na ocasião, Inteligência Artificial de Spielberg (2001).

Site da Lacuna Inc, que ainda pode ser acessado em cache aqui

Seguindo na linha de transmídia, o filme Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças (2004) trazia em sua narrativa uma empresa chamada Lacuna Inc, que apagava parte das memórias de seus clientes. Na época do lançamento do filme (e por muitos anos após) existia um site verdadeiro desta empresa fictícia, onde era possível inclusive solicitar um orçamento, tudo de mentirinha, claro.

Essa convergência midiática já está tão naturalizada na sociedade contemporânea, que até mesmo uma das autoras deste blog praticou transmídia em um de seus romances, colocando a disposição dos leitores um site fictício simulando o site real da corporação biotecnológica que permeia toda a história distópica, chamada 2121. Esse mix faz parte de nossas vidas e já não nos causa estranhamento.

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