Classificação: 5 estrelas

Classificação: 5 estrelas

Em um dos episódios mais conhecidos e marcantes de Black Mirror, o Nosedive (s3e1), as pessoas são avaliadas com mais ou menos estrelas por outras pessoas com quem cruza e estabelece algum tipo de relação. A ideia de classificar pessoas por seus comportamentos parece, inicialmente, sedutora – afinal, para muitos seria maravilhoso poder avaliar com uma estrela aquele desafeto, para que outras pessoas vissem o quanto ele é desagradável.

No entanto, com o passar do episódio, observamos uma vida toda construída com base na opinião alheia – ainda que você esteja se sentindo mal ou tenha sido mal atendido, você deve sorrir e sempre se mostrar simpático e prestativo para não ser mal avaliado na rede social pelos outros. Isso acaba criando uma auto-vigilância que é uma verdadeira armadilha para a protagonista Lacie Pound, vivida pela atriz Bryce Dallas Howard.

Lacie Pound, com 4,2 estrelas, faz uma postagem na rede social buscando aumentar sua nota (Imagem: Reprodução)

A ideia de avaliar bem ou mal os estabelecimentos – e em menor grau as pessoas – ganhou força a partir dos anos 2000 com os smartphones e a facilidade de conexão à internet.

O uso de mídia locativa quase nos obriga a fazer uma avaliação do local – quem nunca se irritou com a quantidade de perguntas que o Facebook faz sobre determinado local após um simples check-in para mostrar aos amigos onde a foto foi tirada?

Lemos (2007) define mídia locativa (locative media) como “um conjunto de tecnologias e processos info-comunicacionais cujo conteúdo informacional vincula-se a um lugar específico”. Ela é bem útil quando queremos acessar a opinião de outros consumidores sobre um produto ou um local – e quem sabe, no futuro, a respeito de uma pessoa também, como no caso do episódio de Black Mirror.

Buscando aumentar sua média entre as avaliações das pessoas para 4,5 estrelas, a fim de conseguir a casa dos seus sonhos, Lacie começa a fazer de sua vida uma encenação completa – ela não permite nem que uma amiga de infância conheça seu namorado ou a veja com a roupa um pouco molhada para não causar uma má impressão. Desse modo, escondendo as “imperfeiçòes” da sua vida normal, ela tenta construir uma imagem perfeita e impecável para aparentar ser socialmente relevante.

Nota na vida real

Hoje, quando quero escolher um novo local para visitar ou um hotel para me hospedar, rapidamente procuro no Trip Advisor as avaliações de quem esteve no local, para tentar antecipar, através dos comentários e notas, se o local me agradará e se caberá no meu bolso. Geralmente funciona. Lemos (2007), citando Sant (2006), explica que esse redimensionamento das práticas sociais impulsionado pela hiperterritorialização informacional cria lugares sociais e territórios socialmente relevantes.

Lembro que há uns 15 anos, quando a revista Veja especial “Comer e Beber- Salvador” chegava em casa, eu guardava o exemplar num local protegido e de fácil acesso, porque ali eu tinha a avaliação de locais nunca antes visitados por mim e que poderiam render boas noitadas. Essa era a única maneira que eu tinha de ver o que os “entendidos” do assunto pensavam sobre os restaurantes, bares e botecos de Salvador.

Agora, imagine se você encontra no Trip Advisor um restaurante na sua cidade com pratos apetitosos, bem montados e fotografados e milhares de avaliações dando nota máxima ao local? Eu ficaria ansiosa para conhecer. Isso aconteceu com o The Shed ot Dulwich, restaurante londrino que figurou como o mais bem avaliado da cidade, em uma lista que chega a quase 20.000 estabelecimentos.

Um dos pratos do restaurante londrino The Shed ot Dulwich (Imagem: Reprodução)

No entanto, encontrar uma vaga para conhecer o menu do restaurante era impossível – além do local nunca ter reservas disponíveis, o restaurante não passava de uma encenação montada por um jornalista munido de uma imaginação fértil e talento para transformar espuma de barbear, massa de modelar e outros objetos em pratos aparentemente reais (Butler, 2017). O mentor do restaurante falso, Oobah Butler, levou ao extremo a encenação vista em Black Mirror para mostrar as falhas nesses sistemas de avaliação.

Oobah Butler mostra o como preparava os pratos do seu restaurante (Imagem: Reprodução)

Vigilância

A mídia locativa tem auxiliado a ficção científica também a identificar personas non-gratas, impedindo seu acesso livre à qualquer lugar. No filme francês O Quinto Elemento (The Fifth Element, 1997), dois bandidos, já fichados pela polícia, tentam enganar a aeromoça, que controlava a entrada de um evento, através de disfarces bem realistas. Imediatamente, o computador identifica o RG dos fora-da-lei e os mostra como “Bad Guys”, entregando para as autoridades as identidades escondida sob os disfarces.

Korben Dallas (Bruce Willis) e Leeloo (Milla Jovovich), personagens principais do filme O Quinto Elemento. (Imagem: Reprodução)

O próprio protagonista, o taxista Korben Dallas, vivido pelo ator Bruce Willis, tem que se identificar diariamente ao órgão regulador de trânsito, que detecta sua localização, para mostrar que não fugiu da justiça – a tela para a qual ele se mostra funciona como uma espécie de tornozeleira eletrônica, só que mais discreta. Quem sabe se no futuro a biometria que está sendo recolhida pelo TRE não é utilizada com finalidade de vigilância também?

 

Referências

BUTLER, O. (2017) Transformei meu barracão no restaurante mais bem avaliado do TripAdvisor em Londres. Disponível em: <https://www.vice.com/pt_br/article/434gqw/transformei-meu-barracao-no-restaurante-mais-bem-avaliado-do-tripadvisor-em-londres>. Acesso em: 16 jan 2018.

ROSENBERG, E. (2017) Restaurante falso em Londres chega ao topo de ranking em site de viagens. Disponível em: <https://tinyurl.com/ycjtytsh>. Acesso em: 20 jan 2018

LEMOS, A. (2007) Mídia Locativa e Territórios Informacionais 1. Disponível em:  <https://www.facom.ufba.br/ciberpesquisa/andrelemos/midia_locativa.pdf>. Acesso em: 20 jan 2018

Sugestões:

JIMÉNEZ, E & MARCOS, N. (2018) ‘Black Mirror’: todos os episódios, organizados do pior para o melhor. Disponível em: <https://brasil.elpais.com/brasil/2018/01/11/cultura/1515697182_485240.html>. Acesso em: 21 jan 2018.

COELHO, C. (2017) Mídia e poder na sociedade do espetáculo. Disponível em: <https://revistacult.uol.com.br/home/midia-e-poder-na-sociedade-do-espetaculo/>. Acesso em: 21 jan 2018

DELAQUA, V. (2013) Cinema e arquitetura: O quinto elemento. Disponível em: <https://www.archdaily.com.br/br/01-103620/cinema-e-arquitetura-o-quinto-elemento>. Acesso em: 21 jan 2018

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