As redes de integração na ficção científica

As redes de integração na ficção científica

Por meio de uma rede integrada cada ser vivo percebe informações que vêm do ambiente interno e externo ao corpo através de terminações nervosas e sensoriais. A resposta aos estímulos são dadas através dos diferentes sistemas, seja ele muscular, circulatório, endócrino e mesmo o próprio sistema nervoso.

A interligação dos sistemas no corpo humano é retratada de modo fantasioso no filme Lucy (2014), de Luc Besson. Enganada pelo namorado, a protagonista é obrigada a transportar uma grande quantidade de uma droga sintética no estômago.

Um acidente faz o pacote explodir dentro da personagem estrelada por Scarlett Johansson. Uma sequência rápida de imagens mostra a substância azul se espalhando pelas células de Lucy, que tem sua capacidade de uso do cérebro aumentada por causa disso.

Trailer do filme Lucy (2014)

A tecnologia vem sendo aperfeiçoada cada vez mais para diminuir distâncias físicas e temporais e facilitar mesmo as atividades cotidianas na forma da teleinformação. A ficção, por sua vez, tem dado saltos de previsão para tornar ainda mais atraente a realidade permeada por redes construídas como artefatos.

Casal Katniss e Peeta na arena dos jogos vorazes (imagem promocional do filme lançado em 2012, inspirado no livro)

No primeiro livro da trilogia Jogos Vorazes, de Suzanne Collins, o público que está em casa consegue acompanhar onde estiver, mesmo na rua através de projeções em formato de tela, tudo o que acontece dentro da arena dos jogos em tempo real. A aprovação ou rejeição da audiência se reflete em mimos que os jogadores podem receber na arena.

Na trama, a personagem Katniss Everdeen se aproveita da transmissão das imagens para manipular a audiência e sensibilizar os “patrocinadores”. Forjando um romance, ela simula sentimento amoroso

Caixa de presente enviada para Katniss na arena pelos patrocinadores (cena do filme de Gary Ross lançado em 2012)

profundo pelo parceiro Peeta Mellark, de quem deveria ser rival pelas regras do jogo. O casal logo conquista a audiência e, assim, cresce a quantidade de mimos recebida, bem como a chance de sobrevivência e sucesso na batalha.

Situação semelhante acontece na transmissão do Teleton pelo SBT. No programa anual, transmitido ao vivo pela televisão, vários artistas buscam sensibilizar a audiência – e, assim, arrecadar mais dinheiro – seja através de discursos emocionados ou mostrando a vida de deficientes físicos beneficiados com a ação.

O fato do programa ser ao vivo possibilita também interação do público com os artistas: a todo instante são mostrados os famosos que estão naquele momento atendendo as ligações dos “patrocinadores”, ou melhor, das pessoas que estão fazendo doações. A chance de conversar ao vivo com uma celebridade é outro fator que impulsiona as ligações e, consequentemente, aumenta o caixa, assim como nos Jogos Vorazes.

Antagonismos que surgem a partir da relação da cultura com as tecnologias são apresentados por Weissberg (2004) no artigo “Os paradoxos da teleinformática”. Em relação à economia de tempo que os artefatos possibilitam, ele afirma, por exemplo, que quanto mais rápido o ser humano realiza tarefas, mais ele estabelece afazeres para serem feitos – ou seja, o que deveria trazer praticidade e tempo poupado na verdade acaba ocupando mais o indivíduo.

Lipovetsky (2004) também fala sobre a nova configuração do tempo com o advento da tecnologia: “o tempo é escasso e se torna um problema, o qual se impõe no centro de novos conflitos sociais. Horário flexível, tempo livre, tempo dos jovens, tempo da terceira e da quarta idade: a hipermodernidade multiplicou as temporalidades divergentes.” Nunca tivemos tanta rapidez em realizar coisas e tão pouco tempo livre.

Imagem promocional do filme Click (2006), onde é possível ler “Life Menu” no controle- remoto

No filme Click (Frank Coraci, 2006), o arquiteto Michael Newman, interpretado por Adam Sandler, adquire um controle remoto que lhe permite “avançar” no tempo de modo a conseguir desfrutar nos mínimos detalhes os bons momentos e passar rapidamente pelos percalços de sua vida.

No início, o artefato parece bastante vantajoso, mas com o tempo o paradoxo surge: com o uso, o controle deixa o tempo passar em piloto automático. Além de não conseguir mais moderá-lo à sua vontade, Newman descobre que os obstáculos dos quais ele fugiu continham lições de vida muito importantes – que o ensinariam também a aproveitar melhor as boas circunstâncias da vida.

Outra “desvantagem” das redes tecnológicas é mostrada no seriado The Good Place, de Michael Schur. A série mostra moradores, obviamente já mortos, de uma cidade que fica no paraíso. Embora os artefatos da rede não sejam mostrados fisicamente, a conexão entre os moradores e o “welfare state” é evidenciado através do abalo instantâneo da integridade estrutural da cidade cada vez que um indivíduo comete um ato considerado “do mal”.

Trailer da série The Good Place (2016), dirigida por Michael Schur

Plantas morrem, objetos estranhos chovem e buracos surgem no meio da rua assim que os personagens falam mal uns dos outros, interrompem festas ou escondem a sujeira do chão que deveria ser limpo embaixo do tapete, mostrando que, mesmo na ficção, o paradoxo entre cultura e as tecnologias persiste.

A recepção de filmes, seriados, novelas e livros em cada país ou região pode ser diferente, de acordo com a cultura regional. Weissberg fala sobre moldar-se a “filtros locais”, pensando nisso alguns estúdios fazem modificações em seus conteúdos dependendo do país de recepção. Um exemplo é a animação Divertida Mente (Pete Docter, 2015), que recebeu algumas modificações em sua distribuição. Na cena em que a Riley é ainda um bebê e faz pirraça para comer seus vegetais, em algumas partes do mundo ela se recusa a comer brócolis, enquanto no Japão o problema é com pimentão, já que lá as crianças costumam adorar brócolis.

Cena modificada em Divertida Mente

Quando falamos em redes comunicacionais, pensamos primeiramente na comunicação em massa, no sistema um-para-todos, mas o segundo sistema de comunicação tem crescido vertiginosamente: as redes sociais. A comunicação interpessoal tem passado por uma revolução nas últimas duas décadas, ampliando as formas de “reduzir” distâncias. A telepresença (tele = à distância) então extinguiria os vínculos territoriais? O que vemos não é exatamente isso, pelo contrário, estamos vivendo uma reterritorialização das informações, como se criássemos nossas próprias camadas nos mapas, com informações personalizadas.

Cena do filme O Preço do Amanhã (2011)

Se a questão territorial estivesse perdendo força não veríamos nações preocupadas com a imigração em massa, nem presidentes construindo muros ao redor de seu país. No cinema, alguns filmes retratam a questão dos limites geográficos e o controle de acesso, como no filme O Preço do Amanhã (2011, Andrew Nicol), onde há uma divisão política entre periferia e “cidade dos ricos”. Outro gancho que este filme nos traz é com relação ao tempo e sua escassez, nesta distopia futurista com desfile de carros antigos, “tempo é dinheiro” não é uma metáfora, é a forma de sobrevivência. Salário, empréstimos, roubos, pagamentos, a moeda é sempre o tempo de vida de cada cidadão. Aqueles mais pobres costumam trabalhar em troca de 24 horas de vida, os mais abastados possuem milhares de anos à disposição, exibido num letreiro no braço.

Teletransporte no seriado Star Trek

Weissberg diz que estamos bem longe de conseguir o teletransporte corporal, portanto a questão territorial da presença continua sendo uma espécie de demarcação de espaço designado; os conceitos de proximidade e localização são apenas redefinidos, não aniquilados. Esse sonho da humanidade de poder se teletransportar talvez seja um dos maiores desejos caracterizados na ficção científica em todas as mídias narrativas, bem como o desejo de viajar no tempo. Vamos nos ater apenas aos seriados que abordaram esses temas, é possível elencar uma enxurrada de exemplos, entre eles Legends of Tomorrow, Doctor Who, Warehouse 13, Sliders, Voyagers, Heroes, Fringe e Star Trek. Enquanto não inventam uma cabine telefônica com poderes de viajar no tempo, nos resignamos com as maravilhas da teleinformação.

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