As novas multidões são muito Black Mirror

As novas multidões são muito Black Mirror

As coisas moldam as pessoas ou as pessoas moldam as coisas?

Há cerca de três a quatro milhões de anos o homem passava por uma radical mudança social. Os artefatos de pedra, ossos e madeira ajudaram a desenvolver uma parte do cérebro, antes inativa. O desenvolvimento dessas tecnologias e, consequentemente, do cérebro humano diferenciou cada vez mais o homem dos outros animais. Por consequência, o comportamento social se modifica e se adapta aos avanços da tecnologia.

É impensável compreender o homem sem o artefato. “Se retirarmos o objeto, não teremos mais sujeito.” (Lemos, A. 2011) As manifestações de 2013 no Brasil, a Primavera Árabe em 2010 e demais manifestações populares que as sucederam são um exemplo de como o homem usou as ferramentas tecnológicas para promover mobilizações sociais. Sem o Facebook, Twitter e outras “ferramentas” é muito provável que essas manifestações não tivessem arrastado multidões às ruas e causado tanto impacto nas sociedades em que estavam inseridas, servindo inclusive de modelo para demais sociedades.

As chamadas “ferramentas” como o Facebook, Twitter e blogs exerceram um papel muito maior que o de apenas ferramentas. Participaram como coautoras do processo de mobilização social.

Essas ferramentas, porém, continuam sendo guiadas por quem as utiliza. Sendo agentes moldados para o bem ou para o mal de acordo com quem delas faz uso. É muito Black Mirror pensar em uma revolução dos artefatos contra o homem. Porém, é do homem levantar guerra contra outros homens.

Cena de Hated in the Nation, episódio de Black Mirror

O último episódio da terceira temporada da série (Hated in the Nation) é um exemplo de como o homem se utiliza das ferramentas em sua busca por “justiça”. No episódio a tag #DeathTo (#MortePara), utilizada sem pudor nas redes sociais, era uma forma de escolher quem seria o próximo a morrer.

Hashtag #DeathTo

O comportamento do homem muda em estado de multidão. As redes sociais são as novas multidões. Dão ao homem uma máscara e o poder de insultar na coletividade, muitas vezes sem consequências. O Twitter, Facebook, blogs e demais ferramentas funcionam como espaços públicos onde as multidões tomam força para seus ataques.
Na série, as pessoas que utilizaram a tag #DeathTo nas redes sociais foram rastreadas e mortas como exemplo para que as pessoas encarem as consequências do que fazem nas redes. A citação “Graças a Revolução Digital nós temos o poder de defender, acusar e destilar o ódio sem consequências. Apenas sendo forçados a reconhecer o poder que a tecnologia nos concede e assumir a responsabilidade individual” contida no manifesto feito pelo autor do ataque reflete essa nova multidão que molda e é moldada pelo artefato.

Trailer do episódio de Black Mirror The National Anthem

David Cameron e um porquinho: caso real #PigGate

No episódio inaugural de Black Mirror (The National Anthem) vemos também que o poder da multidão pode ser a motivação para um lunático criar uma obra de arte doentia. Uma herdeira da família real britânica é sequestrada e para sua libertação é exigido que o primeiro-ministro apareça num vídeo com transmissão ao vivo tendo relações com um porco. O vídeo do sequestrador viraliza em minutos, e vários internautas do Twitter começam a usar a hashtag #Snoutrage, uma referência ao caso real envolvendo o ex primeiro-ministro David Cameron, que inseriu seu membro num porco morto num ritual de iniciação nos seus tempos universitários, caso que ficou conhecido como PigGate.

Na série, a refém fora libertada antes do cumprimento da gravação do vídeo pelo primeiro-ministro, porém ninguém percebeu porque toda a população estava assistindo ao vídeo.

 

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