Aplicativos, selfies e zumbis tecnológicos

Aplicativos, selfies e zumbis tecnológicos

Software. O termo, que passou a fazer parte do nosso dia a dia em especial devido à expansão da microinformática, refere-se a um dos componentes-chave do desenvolvimento tecnológico. Chamados em português de programas, os softwares são interfaces que permitem a comunicação entre o ser humano e os dispositivos eletrônicos, e que operam de acordo com os comandos de entrada (input) inseridos através dos hardwares, a parte física dos aparelhos.

Essa interação atingiu um novo patamar com o boom dos chamados smartphones, celulares que possibilitam a realização das mais diversas tarefas: desde ouvir músicas, tirar fotos e assistir a vídeos, até a realização de transferências bancárias, envio de conteúdo multimídia, ou mesmo a realização de videochamadas/videoconferências. Com relação à função primeira desses aparelhos – efetuar ligações –, muitos não devem sequer lembrar dela…

Toda essa variedade de recursos passou a ser possível graças, em boa parte, à criação dos aplicativos para dispositivos móveis (Apps), softwares utilizados dentro da dinâmica de mobilidade. Atualmente a maioria dos softwares mais conhecidos possuem a sua versão em aplicativos para smartphones ou tablets, o que possibilita a ampliação do uso desses programas para outros contextos não imaginados originalmente. Ou, como sintetiza uma das propagandas dos aplicativos Adobe: “Ideias incríveis podem surgir em qualquer lugar (…), trabalhos incríveis também”.

Star Trek – PADD

Alguns desses equipamentos multifuncionais foram “previstos” em várias obras de ficção científica, ou mesmo sua criação foi inspirada nesse universo. A série Star Trek: The Next Generation, exibida entre 1987 e 1994, apresentou o Personal Access Data Devices (PADD), que unia uma série de funções em um único aparelho e é uma espécie de tataravô do iPad, o primeiro tablet de grande sucesso mundial. A Apple inclusive disponibiliza um aplicativo oficial com interface semelhante à do PADD para alguns dos seus produtos.

Encontro entre Os Jetsons e Os Flintstones

A animação The Jetsons, produzida pelos estúdios Hanna-Barbera e exibida originalmente entre 1962 e 1963, surgiu como uma contraposição aos pré-históricos Flintstones, do mesmo estúdio, e apresentou sugestões de artefatos que muito mais tarde tornaram-se realidade, a exemplo dos smartwatches – relógios de pulso que condensam diversas funções, além de funcionarem sincronizados aos smartphones – e das smart tvs, que possuem um sistema operacional que possibilita a utilização dos mais diversos aplicativos. Interessante observar como cada vez mais o conceito de aparelho “smart” (inteligente) é muito mais associado à possibilidade de troca de informações entre os equipamentos, em vez de objetos dotados de uma avançada inteligência artificial (A.I., em inglês).

Com relação aos primeiros tablets multifuncionais, um componente de hardware em particular teve a sua utilização modificada pela prática dos usuários, em comparação com a expectativa inicial dos fabricantes: a câmera frontal. Criada originalmente com o intuito de possibilitar a realização de videochamadas/videoconferências (recurso tecnológico sugerido por muitas obras de ficção científica entre as décadas de 1960 e 1980), o seu uso foi potencializado por outra prática, adorada por uns e odiada por outros: o selfie.

No texto “Dos Elfos aos Selfies” (2013), da jornalista, fotógrafa e professora Simonetta Persichetti, a autora lança mão do seu conhecimento sobre fotografia para analisar o fenômeno das selfies, criticando o aspecto narcisista dessa prática, em geral. Mas também é possível analisar a questão sob outra perspectiva: a de que as selfies são menos imagem e mais interação, uma tentativa não apenas de “pseudo saída do anonimato”, nas palavras da autora, mas também de construção de narrativas, da própria identidade do indivíduo.

Atribuir de maneira irrevogável o caráter de banal às selfies pode impedir uma análise mais ampla do fenômeno e dos seus vários desdobramentos, a exemplo da realização de lives (no Youtube, Facebook, Instagram, etc), que curiosamente guardam semelhanças com as já citadas videoconferências, permitindo inclusive a interação em tempo real com os espectadores.

Propaganda Iphone 7 com The Rock

Toda essa infinidade de recursos e aplicativos, junto à necessidade de estarmos constantemente conectados à internet para a utilização plena dos mesmos, pode indicar para os mais pessimistas que vivemos uma espécie de “overdose tecnológica”. Se a realidade depender das sugestões vindas das obras de ficção, a tendência é de que esse quadro apenas se intensifique.

Tony Stark interagindo com o J.A.R.V.I.S.

No filme Homem de Ferro (2008), temos o exemplo da interface J.A.R.V.I.S., sistema de inteligência artificial que controla os ambientes e equipamentos da casa do seu criador, Tony Stark, além de monitorar a sua armadura, a sua saúde, e fazer as vezes também de assistente pessoal, principalmente como uma espécie de “voz da consciência”. A Marvel Entertainment transformou o J.A.R.V.I.S num app que simula um assistente pessoal por comando de voz, como no filme, e foi disponibilizado em 2013 para iOS e Android. O conceito de smart house (casas inteligentes), que para muitos ainda é apenas um produto da ficção, já se transformou em realidade há um certo tempo, assim como as pulseiras que monitoram os batimentos cardíacos, contadores de passos, etc.

Quanto à integração dos softwares de assistência pessoal ao cotidiano dos(as) usuários(as) (a exemplo da Siri, da Apple, Cortana, da Microsoft, e Alexa, da Amazon), o filme Her (2013) apresenta uma ideia que já não parece tão improvável de tornar-se realidade: um sistema operacional dotado de elevada inteligência artificial, que se transforma na melhor companhia do(a) usuário(a). O filme aborda os laços afetivos que são criados com esse sistema, e algumas das possíveis consequências dessa interação.

Filme Her
Android zombies

Aqueles que temem um futuro caótico provocado pela dependência da tecnologia provavelmente sentiram calafrios ao verem o easter egg do sistema Android 2.3 (a imagem ao lado), lançado em 2010, que apresenta zumbis com celulares nas mãos. A obra é do ilustrador Jack Larson, conhecido por fazer desenhos com a temática zumbi. Se lembrarmos a quantas previsões de apocalipse já resistimos, e como muitas obras de ficção imaginaram catástrofes irreversíveis para os anos 2000, talvez não devamos nos preocupar tanto.

Por outro lado, nenhuma ficção científica deu conta de prever que, em pleno 2017, ainda discutiríamos temas tão elementares como a esfericidade do planeta Terra… Pensando bem, talvez os Flintstones devessem se preocupar menos com os dinossauros do que nós com o que a nossa inteligência (ou ignorância) nos reserva.

 

Referências e sugestões de leitura:

Persichetti, S. Dos elfos aos selfies. In: KUNSCH, Dimas; PERSICHETTI, Simonetta (Org). Comunicação: entretenimento e imagem. São Paulo: Editora Plêiade, 2013.

http://blogdoscursos.com.br/os-jetsons-e-tecnologia/

https://www.tecmundo.com.br/ipad/3539-ipad-o-lado-bom-e-o-lado-ruim.htm

http://mentalfloss.com/article/31876/12-star-trek-gadgets-now-exist

https://brasil.elpais.com/brasil/2017/12/05/tecnologia/1512483985_320115.html

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